Dois anos das enchentes de 2024: investimentos em resiliência na rede de saúde do Rio Grande do Sul
Com recursos do Estado, Hospital de Rolante construiu sistema de contenção para evitar novos alagamentos
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Em maio de 2024, o município de Rolante viveu um dos momentos mais dramáticos de sua história recente. As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul atingiram em cheio a cidade, destruindo estradas, pontes e bueiros, além de comprometer serviços essenciais.
Localizado às margens do Rio Rolante, afluente do Rio dos Sinos, o Hospital de Rolante foi severamente impactado pela cheia. Todo o andar térreo da instituição foi inundado. O nível da água atingiu cerca de 1,5 metro de altura nos corredores, provocando prejuízos estimados em R$ 3,6 milhões. Diante do cenário crítico, foi necessária a transferência imediata dos pacientes internados para outra unidade hospitalar, a fim de garantir a continuidade dos atendimentos.
A resposta emergencial veio ainda naquele mês, com o repasse estadual extraordinário de R$ 750 mil para a recuperação do hospital, além da destinação de R$ 200 mil para a abertura de leitos de retaguarda. Contudo, a experiência vivida em 2024 levou gestores locais e estaduais a avançarem para além da reconstrução imediata, apostando em soluções estruturais voltadas à prevenção e à resiliência frente a eventos meteorológicos extremos.
Por meio do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), foram repassados R$ 540,9 mil ao município de Rolante para a implantação de um sistema de proteção contra inundações, inaugurado em dezembro de 2025. Trata-se da primeira ação desse tipo voltada especificamente à prevenção de impactos de enchentes na rede hospitalar do Estado. Em uma área de cerca de 1,5 mil metros quadrados, foi construída uma espécie de “caixa” de proteção ao redor do hospital, composta por muros reforçados, dique elevado, comportas metálicas e bombas de recalque.
O sistema permite a drenagem da água da chuva e impede o retorno de esgoto em caso de cheia do rio, aumentando significativamente a segurança da estrutura. O projeto segue as diretrizes do Funrigs, que prioriza, na área da saúde, a recuperação de estruturas com foco em adaptação climática e resiliência para o futuro.
Referência regional em cirurgia geral, traumatologia, ortopedia, dermatologia, urgência e emergência, o Hospital de Rolante conta com 52 leitos e atende mais de 200 mil habitantes de seis municípios: Rolante, Riozinho, Parobé, Igrejinha, Taquara e Três Coroas.
Mensalmente, o hospital realiza cerca de 1,8 mil atendimentos de urgência e emergência, mantém média de 95 internações, oferece 430 consultas especializadas e realiza 47 cirurgias.
Ações emergenciais da Secretaria da Saúde
Além das intervenções estruturais, a Secretaria da Saúde (SES) mobilizou esforços inéditos para assegurar o atendimento à população durante e após a catástrofe. Os municípios atingidos receberam R$ 24,7 milhões, sendo R$ 12 milhões aplicados na ampliação de 197 equipes multidisciplinares de saúde mental na atenção primária à saúde (APS), beneficiando 105 municípios em situação de calamidade ou emergência. Outros R$ 12,7 milhões foram destinados ao fortalecimento da APS, ampliando a capacidade de resposta local diante das demandas impostas pela crise.
Para apoiar a retomada dos serviços, R$ 15,3 milhões foram repassados a 42 municípios em estado de calamidade para a compra de novos equipamentos e mobiliários. Outros 82 municípios com até 100 mil habitantes também foram beneficiados, o que possibilitou pequenas reformas em unidades básicas de saúde.
No campo da assistência farmacêutica, a SES coordenou operações logísticas emergenciais para garantir o fornecimento de medicamentos e insumos às regiões alagadas. Com o Aeroporto Salgado Filho fora de operação, a Base Aérea de Canoas tornou-se o ponto central das ações logísticas. Ao longo do período crítico, foram despachadas cerca de 140 toneladas de medicamentos e insumos, até o restabelecimento do transporte terrestre.
Para organizar o grande volume de doações recebidas de diversas partes do país, foi estruturado um Centro de Distribuição da Rede de Farmácias em Gravataí. Com o apoio de um aplicativo, mais de 200 serviços de saúde cadastraram mais de mil pedidos, viabilizando a distribuição de mais de 60 milhões de unidades farmacêuticas para municípios e hospitais, além do envio de 130 kits de medicamentos e insumos encaminhados pelo Ministério da Saúde, suficientes para atender até 390 mil pessoas.
Investimentos estruturantes pelo Plano Rio Grande
O Plano Rio Grande também destinou recursos estratégicos para fortalecer hospitais em diferentes regiões do Estado, com foco em adaptação climática, modernização e ampliação da capacidade assistencial.
Em Lajeado, o Hospital Bruno Born recebeu investimentos para a aquisição e modernização de equipamentos, implementação de infraestrutura adaptativa e adequação do heliponto, incluindo a instalação de um elevador maca com acesso direto até a estrutura aérea. Embora não tenha sido diretamente atingido pelas águas, o hospital teve papel fundamental como referência assistencial durante as enchentes de 2024 no Vale do Taquari, qualificando a logística de urgência e emergência.
A Eldorado do Sul, um dos municípios mais severamente atingidos pelas enchentes, foram destinados R$ 1,64 milhão para a elaboração e o desenvolvimento do projeto de um hospital resiliente. A iniciativa estabelece as bases para uma futura edificação concebida integralmente sob os eixos de adaptação e resiliência climática, consolidando um novo paradigma de infraestrutura hospitalar no Estado.
Já em Roca Sales, onde os eventos de cheias impactaram diretamente os serviços de saúde, o governo do Estado investiu R$ 863 mil na contratação de projetos de arquitetura e engenharia para a construção de um novo hospital. A proposta segue diretrizes modernas de segurança estrutural, continuidade assistencial e preparação para eventos climáticos extremos.
No município de Teutônia, o Hospital Ouro Branco recebeu R$ 940 mil do governo estadual para o desenvolvimento de projetos de arquitetura e engenharia para ampliação e reforma da unidade. Referência regional no Vale do Taquari, o hospital terá sua capacidade de atendimento qualificada e ampliada, alinhando-se às diretrizes de fortalecimento da rede regional e de adaptação da infraestrutura frente às mudanças climáticas.